Por que “sapiência, ignorância e conhecimento”?

Digo: Sapiência, Ignorância e Conhecimento…

Primeiro, sapiência pode não ser tão comum para alguns, mas pode ampliar nossa vontade e desejo pelo saber. Segundo, a ignorância faz parte de algo intrínseco ao ser humano. Não estamos livre. Precisamos compreendê-la. Mas, sempre continuar diminuindo essa cegueira. E, finalmente, conhecimento é algo caro a qualquer indivíduo ou civilização que queira compreender a complexidade de qualquer barbárie, tendo em vista sua própria sapiência e ignorância coexistentes na humanidade.

Permita-me informar que não temos pretensão de seguir à risca questões de normalização para textos acadêmicos e científicos. Isso não quer dizer que não temos apreço pela formatação de um texto desse tipo. Longe disso! Verás que usamos alguns elementos, inclusive, indicados por normas da ABNT¹. Apenas temos o objetivo de apresentar pensamentos e informações em texto.

Sim! Aqui, tão somente, se constroem textos!

Segundo Queiroz (2015),

“De acordo com Jacques Derrida, o texto não pode ser explicado por suas origens (autor, sociedade, história, contexto) sendo que repetição [e diferença são] sua origem. O texto é escrito, e escrever é linguagem […]. A linguagem é relativa ao discurso que ela mesma programa”.

Linguagem é concebida, aqui, como um espaço-tempo que materializa um processo de registro (paradoxalmente, aberto e fechado) em múltiplas significações.

Os textos aqui descritos, pelo menos aqueles de minha autoria, são meras traduções. Não se tratam apenas de traduções de uma língua para a outra, do inglês para o português e vice-e-versa ou, ainda, quaisquer outras línguas. Também não quer dizer que não possamos apresentar esse tipo de tradução. Lembremos que o primeiro texto desse blog (ver o post “Coroação…”) é uma tradução nossa², inclusive publicada no blog de Pierre Lévy.

A tradução, aqui estimada, fora definida por Michel Serres. Esse matemático e filósofo francês — que, inclusive, esteve no Brasil em 1999 onde, dentre outras eventualidades, participou do programa Roda Viva — compreendeu que a tradução se opera na filosofia de Hermes.

Hermes: conhecido como mensageiro dos deuses gregos,

“(…) passa por todo lugar e visita os locais em seu detalhe específico e sua singularidade” (SERRES; FAROUK, 1999, p. 147).

Por meio dessa analogia, segundo Serres (1996), de maneira mais específica, Hermes é aquele que estabelece aproximações, ligações entre vocabulários e objetos. Isto é, na prática, a tradução é um procedimento que produz deslocamentos e que se autoproduz na própria transformação do conhecimento por meio de práticas de informação, em registros e escrita, envolvendo múltiplos elementos sociais, sejam eles sujeitos, objetos, humanos e não humanos, já natureza e cultura em coexistência.

Vale ressaltar, também, que nos é caro nessas traduções a noção de “actante” ou (ator), utilizada pelos autores TAR³ (Teoria Ator-Rede), dentre outros, Bruno Latour, John Law e Michel Callon.

Advindo da semiótica de Algirdas Greimas e outros, da organização textual e de narrativas,

“O actante pode ser concebido como aquele que realiza ou que sofre o ato, independentemente de qualquer outra determinação. […] São seres ou as coisas que, a título qualquer e de um modo qualquer, ainda a título de meros figurantes e da maneira mais passiva possível, participam do processo […]. O conceito de actante substitui com vantagem, mormente na semiótica literária, o termo personagem, e ‘dramatis persona‘, visto que cobre não só seres humanos, mas também animais, objetos e conceitos” (GREIMAS; COURTÉS, 1979, p. 12-13).

Nesse sentido, nossas traduções contêm diferentes atores humanos (nós e os autores alistados nos próprios textos) e não humanos (objetos, natureza) em inscrições materializadas na própria linguagem. São autores, conceitos, dados, fatos, outros textos, etc. Isso se define por meio das práticas de informação com diferentes registros. São registros que nos possibilitam refletir coletivamente acerca dos mais variados assuntos, desde que se considerem discursos entrelaçados, de algum modo, em sapiências, ignorância e conhecimentos.

Sapiência é um atributo de sabedoria. Do latim “sapientia“, significa “aptidão, capacidade, ou habilidade”. Relaciona-se à gama de conhecimentos, ao pensamento, à racionalidade. Ignorância quer dizer “sem saber”. Vem do latim “ignorantia“. É “Imperfeição do conhecimento, mais precisamente a deficiência, inseparável do saber humano e devida às limitações do homem” (ABBAGNANO, 2007, p. 534). Conhecimento do latim cognitio, cognoscere (com = junto; gnoscere = conhecer => obter conhecimento), ou ainda do francês connaissance, que significa co-nascimento. Conhecimento se define como procedimento onde um sujeito consegue descrever ou controlar algo (ABBAGNANO, 2007).

A partir disso, partimos da hipótese de que esses registros gráficos aqui encontrados, contêm elementos de sapiência, ignorância e conhecimento. Visto que se tenta construir traduções em texto no qual as informações aqui, delineadas, possam oferecer condições para produção do seu próprio conhecimento enquanto leitor. Pois, embora nos esforçamos para apresentar, em algum momento, reflexões, subjetividades e objetividades entrelaçadas em autores, conceitos, teorias, métodos, dados, fatos, dentre outros devidamente inscritos, estamos cientes dos limites naturais que tangenciam quaisquer produção de conhecimento, tanto em torno da escrita quanto da leitura.

Sendo assim, pretendemos apresentar textos acerca de diferentes assuntos. Assim, visamos contribuir no desenvolvimento de suas próprias reflexões, ampliar seu leque de informação e produzir cada vez mais conhecimento. E, de alguma forma ajudar a construir um mundo ecologicamente mais justo e democrático no que tange às relações sociais envolvendo pessoas, linguagem e natureza.

Por fim, é preciso afirmar que, esses nomes que denominam o blog — comuns ou não — podem chamar atenção, de fato. Primeiro, sapiência pode não ser tão comum para alguns, mas pode ampliar nossa vontade e desejo pelo saber. Segundo, a ignorância faz parte de algo intrínseco ao ser humano. Não estamos livre. Precisamos compreendê-la. Mas, sempre continuar diminuindo essa cegueira.

Como nos disse Galileu Galilei:

“Nunca encontrei uma pessoa ignorante que não pudesse aprender com a sua ignorância”.

E, conhecimento é algo caro a qualquer indivíduo ou civilização que queira compreender a complexidade de qualquer barbárie, tendo em vista sua própria sapiência e ignorância coexistentes na humanidade.

Por fim, queremos definir

Deixo-vos uma frase de Bruno Latour4, que nos chama bastante atenção acerca da construção do conhecimento (científico ou não):

“Já não precisamos escolher entre Direito e Poder porque outro partido ingressou na disputa, o coletivo; já não temos de decidir entre Ciência e Anticiência, pois também aqui aparece um
terceiro partido: o mesmo terceiro partido, o coletivo”.

Por um mundo mais coletivo!

____________

Notas

¹ Associação Brasileira de Normas Técnicas.

² “Nossa” porque a tradução se realiza na integração entre mim e máquina. Explico! Como não domino nenhuma língua, nem mesmo o português — minha “língua materna” –, essa tradução ocorreu por meio de minha leitura levyana, digamos,  e do uso de um tradutor, no caso o DeepL tradutor. Vale lembrar que não sou nenhum especialista nem tradutor fiel de Pierre Lévy, apenas um mero espectador que, inclusive, já utilizou alguns de seus conceitos, como “inteligência coletiva” na dissertação.

³ Teoria Ator-Rede (ou Actor-Network Theory (na língua inglesa)) é uma abordagem sociológica contemporânea encontrada, principalmente, nas ciências sociais que se utiliza de diferente conceitos, dentre outros ator, rede, tradução e social. Ela visa investigar o conhecimento científico acerca de sua produção social e cultural, considerando a heterogeneidade dos agenciamentos sociotécnicos. Estes, por sua vez, como conexões sociais e materiais construídas e constituídas entre atores humanos e não humanos, naturezas e culturas.

4 Ver Latour (2001).

Referências

  • ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Martins Fontes: São Paulo, 2007.
  • GREIMAS, Algirdas Julien; COURTÉS, Joseph. Dicionário de semiótica. São Paulo: Editora Cultrix, 1979.
  • LATOUR, Bruno. A esperança de Pandora: ensaio sobre a realidade dos estudos científicos. Bauru: EDUSC, 2001.
  • QUEIROZ, Vitor de. Jacques Derrida: desconstrução e “différance”. 2015. Disponível em: encurtador.com.br/qMNRZ. Acesso em: 1 maio. 2020. [Blog Colunas Tortas].
  • SERRES, Michel. Diálogos sobre a Ciência, a Cultura e o Tempo: conversas com Bruno Latour. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.
  • SERRES, Michel; FAROUK, Nayla. Paysages des sciences: sous la direction. Paris : Pommier, 1999.

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